Lições do Brasil 1: ‘Positividade sexual’ é o novo Puritanismo

No Brasil, mais um Carnaval se vai. Estive no país durante o mês de Carnaval, principalmente porque é a terra natal de meu marido. Mesmo com Carnaval em pleno andamento, foi relativamente fácil ignorar a farra, festança e bundas rebolando que ladeavam todas as telas de TV, já que por grande parte do tempo haviam muitas outras coisa acontecendo no país. Por exemplo, em São Paulo 20 milhões de habitantes tiveram sua água cortada, cinco dias por semana, devido à escassez. Mais ao sul, parte de Porto Alegre tinha inundado. A metade sul do Brasil começou a sofrer com a falta de combustivel devido a greve de camioneiros que paralisou estradas e durante varios dias. Ouviam-se rumores de uma nova legislação do feminicídio, que agora já está aprovada em lei. Também houve uma situação em que quase pisei em uma cobra coral mortal durante uma caminhada na floresta. De volta ao Carnaval brasileiro, que em toda a sua gloriosa diversidade é uma Mecca para os festejos da “positividade sexual”. O Carnaval preenche todos os requisitos quando se trata de celebrações da positividade sexual, mostrando mulheres nuas e seminuas (às vezes homens seminus) em todas as suas várias formas, tamanhos, idades e cores, abrangendo pessoas de todas as esferas da vida, com milhões de preservativos gratuitos e inevitavelmente a muita sensualidade e sexo.

Provo da banheira - one of the most popular TV comedy skits of all time. Notice the male host always suited up.Prova da Banheira

Carnaval parece ser o antídoto perfeito para o conservadorismo anti-sexo, puritano e chato que reina. “Puritanismo anti-sexo” é uma crítica que volta e meia reaparece. Autoproclamadas feministas da “positividade sexual” e progressistas criticam conservadores “puritanos”. Mas para ser rotulado puritano hoje em dia, nao e necessario uma política conservadora. Não gosta de pornografia? Puritano! Não apóia o comércio do sexo? Puritano! Não acha que as crianças sendo sexualmente exploradas são “profissionis do sexo”? Puritano! Gosta de pornografia, mas não das coisas realmente “bizzarras”? Puritano! Opiniões políticas de direita? Puritano! Não gosta de assédio nas ruas? Puritano! Parte do movimento anti-tráfico? Puritano! Não acredite que clubes de strip são locais de liberação feminina? Puritano! Não faz sexo todos os dias? Puritano! Faz bastante sexo, mas não praticam BDSM? Baunilha! Que no continuo da linha puritana, está definitivamente no final. Felizmente, o “movimento da positividade sexual” está indo de encontro a todo esse puritanismo. De Herself.com à Free The Nipple, à Slut Walk, à Femen, não há escassez de mulheres reinvindiando os seus direitos. No que poderia ser chamado de a década do anti-puritanismo, parece que as imagens sexualizadas já não são sexistas, mas, ao invés disso, os próprios fundamentos da revolução feminista. Em um nivel superficial, sexualidade explícita parece uma transgressão das noções conservadoras da femininidade. As mulheres podem recuperar a sua sexualidade sem se envergonhar, ou assim a história conta. Mas, a fim de entender como uma femininidade sexualizada é, na verdade nem dissidente nem transgressivo, é preciso olhar além da retórica. domingo

Domingão do Faustão: um dos mais antigo e populares programa de TV no Brasil.

Considere o Brasil, a casa da fiesta da sexualidade positiva. É o país onde clássicos de TV das tardes de domingo em familia incluem concursos de camiseta molhada, mulheres seminuas e a sempre popular Prova da Banheira. Onde programas de TV ensinaram as crianças a danca da garrafa – a sensualmente rebolar sobre uma garrafa. A garrafa representa um pênis, caso a mensagem não está clara. Porém, nem tudo é tão chocante quando praticamente todos os programas de entretenimento incluem um fundo de jovens dançarinas seminuas, com cameras enfatizando e focando em partes dos seus corpos. É também um país onde Viagra é tão amplamente disponível quanto o Novo Testamento. Hotéis brasileiros, frequentemente utilizados pra momentos intimos, ainda disponibilizam bíblias nos quartos. Na verdade, cerca de 85 por cento do povo brasileiro considera-se cristão ou protestante. Talvez esses fatos pareçam um pouco contraditórios para quem vem de fora. Para entender melhor tudo isso, Carnaval é um bom lugar para começar.

Garrafa dance_kidsDanca da Garrafa

Carnaval tem raízes religiosas, marcando o início da Quaresma, e também origens na festa portuguesa “Entrudo”. Mais recentemente o Carnaval é representado pelas escolas de samba e é cada vez mais uma celebração de tudo o que e pornográfico. Dancarinas e a famosa Globeleza são comumente adornada em, não mais do que, tinta, penas e implantes de silicone. Músicas glorificam Deus e mais recentemente, a mão de Deus em cirurgia plástica também – “Dando aos homens de valor do seu cinzel… A imagem e semelhança do Senhor… A luz do céu conduz seu bisturi.” Carnaval promove o cristianismo ao lado de festas de sexo em grupo e filmes pornográfico.

globolezas photo credit Globo.com-2Globelezas (Globo.com)

As crianças são bem-vindas no Carnaval também; se perder o desfile tem sempre a Globeleza que dança nua na TV a cada meia hora durante todo o mês de Carnaval. A Globeleza é sempre uma mulher de cor, se é simbolismo, uma forma de diversidade ou simplesmente a comercialização das mulheres afro-brasileiras, ainda não está claro. Raramente há qualquer contestação em relação a crianças sendo expostas, desde o início, a estes supostos ideais da “sexualidade positiva”. Na verdade, o alvoroço mais significante sobre a imagem do Carnaval ocorreu quando um dos carro alegoricos desfilou com uma representacao em forma de Diabo. As imagens do Diabo foram consideradas ofensivas e o público ficou aliviado quando, mais tarde, o Diabo pegou fogo – a obra de Deus.

tijuca

Tijuca 2007 (Credit Globo.com)

Nos padrões progressistas, a sexualidade explícita de eventos como o Carnaval é um convite à celebração. O que poderia ser mais libertador do que transformar a sexualidade, anteriormente reprimida e puritana, em uma festividade pública? Qual melhor maneira de neutralizar os puritanos anti-sexo do que uma festança da “positividade sexual”? No Brasil, essa “positividade sexual” sem sentido manifesta-se em uma variedade de formas: a discriminação no emprego com muitos postos de trabalho determinandos a mulheres com “bom porte físico”, uma das mais altas taxas de vergonha do corpo no mundo, a maior consumo de pílulas e remedios para dieta e cirurgia plástica no mundo, aumento da violência contra as mulheres durante o Carnaval, juntamente com o aumento na exploração sexual infantil, especialmente nas mãos de turistas que viajam para experimentar a “positividade sexual”. O Ministério da Saúde informa que entre 2009 e 2012, a taxa de estupro aumentou 157 por cento, explicado em grande parte pela cultura machista.

Anti violence against women flyerUm Panfleto anti-violência no Brasil

Infelizmente as campanhas de saúde pública que distribuem preservativos, panfletos anti-violência e anti-tráfico não são suficientes para mitigar o frenesi de câmeras 24/7 mostranto seios e nádegas de mulheres como se fossem pedaços de carne à venda. A imagem é bem clara: isso não é a sexualidade feminina a sendo expressada, mas sim a sua comercialização. Será que toda essa revolução da “positividade sexual” ao invés de libertar as mulheres, na verdade está reforçando a dinâmica conservadora de supremacia do sexo masculino? Sim, poderia ser. Para não ser mal interpretada como sendo uma crítica aos brasileiros ou participantes de Carnaval, este é um problema de nível social, em vez de uma crítica individual as mulheres. O contexto brasileiro considera que sexualização não contraria as normas conservadoras. O caso do Brasil revela o que “positividade sexual” significa para as mulheres. “As pessoas podem pensar que isso é liberdade para as mulheres ter relações sexuais, mas na verdade a liberdade é para que os homens possam ter o corpo das mulheres” como diz uma das minhas amigas brasileiras. (É claro que nenhuma dessas questões são exclusivas do Brasil, ja que os os mesmos efeitos da objetificação sexual ocorrem em todo o mundo.) Na maioria dos países, as mulheres são livres para se pornificar como quiserem, ironicamente, as mulheres muitas vezes não são livres para ser outra coisa a não ser pornográfica. Isso é ilustrado pela proibição de imagens sobre amamentação no Facebook, enquanto a publicidade pornográfica corre solta. Ou o fato de que a publicação indevida de imagens de mulheres nuas se tornou uma solução para os homens descontentes e rejeitados. As mulheres permanecem representadas como objetos de posse, seja no passado puritano ou cultura pornô de hoje, sem nenhuma das duas oferecendo a verdadeira liberdade. No Ocidente, existem outros exemplos. Rupert Murdoch foi feito Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno (KSG), uma honra papal consedida pelo Papa João II. Murdoch é um dos principais editores de textos religiosos, mas ele também promove tablóides de “pornografia leve” e tem parte em ações na distribuição de pornografia online. Murdoch é um exemplo do mundo conservador, onde o sexo não é um problema a ser reprimido, mas um produto a ser vendido. Os conservadores não estão respondendo ao Deus todo poderoso, mas ao Dólar todo poderoso. Para o feminismo liberal, a questão da objetificação sexual é reduzida a noções individualistas da “escolha pessoal” e “autonomia”. Em vez de focar em injustiças sistêmicas que fundamentam objetificação, como a desvantagem econômica, as feministas liberais insistem que a questão principal é que o “puritanismo” torna a sexualidade das mulheres em “vergonha”. No entanto conservadores como Murdoch felizmente embolçam os despojos da sexualização. O tempo todo as violações dos direitos humanos e a exploração sexual é filtrado por “selfies” em pose de “puta orgulhosa”. Mulheres vulneráveis ​​continuam a pagar o preço da desigualdade de gênero. A questão está sendo totalmente mal avaliada. Se o feminismo pudesse aceitar que os “puritanos” não são o problema, talvez estas campanhas poderiam ir além da critica individualistas e ao inves disso luta pelos direitos humanos completos de todas as meninas e mulheres. Para isso, precisamos de mais progresso e não mais pornography. Com agradecimentos a Carina Konzen por oferecer informações sobre sua infância e citações para esta história. Laura McNally – psicóloga, doutoranda, consultora e autora. Sua pesquisa atual examina as implicações políticas e sociais da responsabilidade social corporativa global. Encontre mais de seu trabalho em lauramcnally.com.

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